Andar no Espírito, uma Necessidade a Ser Restaurada

João Barreto Jr.

INTRODUÇÃO​


Somos espírito, alma e corpo, nesta sequência e isto nos mostra a partir de onde Deus começa a operar em nossa vida: do nosso interior para fora, porém temos visto esta ordem sendo invertida, o homem buscando mudança de fora para dentro, na contramão do caminho proposto por Deus. Isto tem gerado cristãos descomprometidos com a santidade de Deus. Precisamos valorizar e viver a nova vida que recebemos em Cristo, precisamos “reaprender” a andar no espírito, somente assim poderemos viver a vida cristã de forma efetiva.


Tenho percebido uma “indisposição” em se viver a vida cristã normal e uma conformidade com este mundo que jaz no maligno. Tal postura é o resultado dos cristãos terem desaprendido a andar no espírito.

Se quisermos praticar a Palavra de Deus, verdadeiramente, precisamos entendê-la corretamente, pois a soma da verdade com a fé é que fará que a torna eficaz em nossa vida. Precisamos distinguir entre “viver no espírito” e “andar no espírito”. O apóstolo Paulo declara que “se vivemos no espírito, andemos também no espírito” (Gálatas 5:25).


FUNDAMENTAÇÃO


O que vem a ser realmente andar no espírito? Antes de responder essa questão, precisamos compreender nossa estrutura. Em 1 Tessalonicenses 5:23 lemos o seguinte: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Este verso nos mostra que somos tripartidos: espírito, alma e corpo, é a ordem da ação do Espírito Santo em nossa vida: de dentro para fora. Iremos expressar exteriormente somente aquilo que já foi realizado no nosso interior.


"No início quando Deus criou o homem, Ele o formou do pó da terra e depois soprou “o fôlego da vida” em suas narinas. Tão logo o fôlego da vida, que se tornou o espírito do homem, entrou em contato com o corpo do homem, a alma foi produzida. Portanto a alma é a combinação do corpo e do espírito do homem. As Escrituras, por isso, chamam o homem de “alma vivente” e o fôlego de vida tornou-se o espírito do homem, isto é, o princípio de vida dentro dele. O Senhor Jesus nos diz que é o espírito que vivifica (João 6:63). Esse fôlego de vida vem do Senhor da Criação." (NEE, 1994, pg. 23)

Não devemos confundir o espírito do homem com o Espírito Santo. Este último é diferente do nosso. Paulo declara em Romanos 8:16 que “O Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus”. O original da palavra “vida” em “fôlego da vida” é “chay” e está no plural, o que pode indicar o fato de que o sopro de Deus produziu uma vida dupla: a vida da alma e a vida do espírito. Na queda, a morte se deu no espírito do homem, que permaneceu biologicamente vivo, mas se tornou espiritualmente morto.


"E assim, desobedecendo, pecaram e trocaram sua inocência por uma consciência acusadora, sua ignorância por um conhecimento do bem que tinham desprezado e do mal que não podiam remediar. Tinham agora seus olhos abertos para descobrir o que teria sido mais feliz ignorar; e, impelidos por um sentimento de vergonha, trabalharam inutilmente para cobrir a sua nudez." (MCNAIR, 1993, pg. 20)

Esta condição todos nós herdamos. Estávamos mortos em nosso espírito e recebemos vida no espírito quando recebemos Jesus. Isto é o novo nascimento, quesito fundamental para podermos viver a vida cristã genuína. A natureza de Deus entrou em nós. Temos uma nova natureza, não mais a pecaminosa, mas a regenerada e precisamos saber a transformação que sofremos quando aceitamos a Cristo como Salvador.


Conversando com vários cristãos, a respeito da nova vida, tenho me surpreendido com o índice no que se refere à gratidão a Deus pela obra regeneradora que experimentaram, entre aqueles que nasceram em um lar cristão e foram educados a frequentar uma igreja desde cedo e os que se renderam a Cristo depois de terem vivido uma vida cheia de pecados. Percebi no primeiro grupo um índice considerável de religiosidade, não se colocavam entre aqueles cujos “muitos pecados foram perdoados”, se têm como menos pecadores do que aqueles que se afundaram nas práticas pecaminosas antes de entregarem suas vidas a Jesus. Esta postura é deveras preocupante, pois segundo afirma Jesus aqueles que têm os seus muitos pecados perdoados ama muito mais do que aqueles que pensam que de poucos pecados foram perdoados (Lucas 7:47).


É fundamental saber qual era o nosso estado real antes de termos recebido a Cristo, pois a intensidade da nossa gratidão está vinculada a isso. "E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados, em que noutro tempo andastes segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência. Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também. Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo. [...] Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto." (Efésios 2:1 a 5; 2:11 a 13).


Muito mais do que dos pecados cometidos, precisamos saber que fomos libertos da natureza pecaminosa, que era o que efetivamente nos separava de Deus. “Sabendo isto, que o nosso homem velho foi com ele crucificado, para que o corpo do pecado seja desfeito, para que não sirvamos mais ao pecado” (Romanos 6:6).

Porém a vida que temos agora em Deus se encontra e se choca com a realidade que temos no mundo. Escrevendo aos filipenses, Paulo os identifica como “santos em Cristo Jesus que estão em Filipos”. O apóstolo está declarando que eles estão em Cristo e em Filipos, ou seja, ele os está fazendo lembrar das duas realidades com as quais eles têm de conviver: a celestial (em Cristo) e a terrena (em Filipos). Estas são as duas esferas de relacionamentos, que se chocam, com as quais temos que conviver.


Temos as nossas celebrações congregacionais onde nos reunimos para cultuar a Deus coletivamente, porém quando as reuniões acabam retornamos para a nossa casa, vamos dormir, acordar e vamos ter que nos deparar com o mundo, com outros grupos de pessoas e ambientes.


A semana vai passando e vamos ter que continuar nesse conflito da vida que está dentro de nós com a realidade do mundo lá fora, totalmente contrária aos princípios divinos, a ponto do Apóstolo Paulo, em Romanos 12:2, fazer, a seguinte advertência: “E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus”. O que o apóstolo está nos comunicando é que não devemos aplicar à nossa vida o padrão de comportamento do mundo que é totalmente contrário à vida de Deus que recebemos.


O problema é que muitas vezes não conseguimos trabalhar com essas duas situações e acabamos por ter apenas uma vida no espírito, mas não uma vida em andar no espírito. Vida no espírito, como já citamos, é ter nascido de novo, é ter recebido a natureza que vai nos capacitar a andar no espírito. Andar no espírito é andar em obediência à Palavra de Deus, é aplicar os princípios divinos em nosso proceder e não os princípios que regem este mundo. É andar em obediência aos valores estipulados por Deus em sua Palavra que trazem ao nosso interior o testemunho que estamos fazendo a coisa certa.


O nosso corpo nos coloca em contato com o mundo físico, nos dá consciência dele; a nossa alma é onde residem as emoções e nos dá consciência de nós mesmo e do próximo; o nosso espírito nos dá consciência de Deus, pois é através dele que temos comunicação direta com o Criador. Depois que os discípulos responderam a pergunta que Jesus lhes fizera acerca do que o povo falava quem Ele era, Ele lhes dirigiu a mesma pergunta. Pedro respondeu que Jesus era o Messias, o Filho do Deus Vivo. Jesus então declara Pedro como bem-aventurado pelo fato de ter recebido aquela revelação diretamente de Deus e não por intermédio de uma pessoa (carne e sangue – Mateus 16:17 e João 1:13). Pedro recebeu a revelação diretamente no seu espírito, sem que ele precisasse processar no seu intelecto as informações que ele tinha, a respeito de Jesus, para chegar à conclusão que chegou.


Uma vez que a vida cristã se vive efetivamente no espírito, temos que tomar cuidado para não confundir revelação com sentimento, direção de Deus com desejo do nosso coração. Se o que estamos sentindo em nosso interior não está de acordo com a Palavra, com os princípios do Reino de Deus, não é para andarmos segundo esse sentimento, tal sentimento deve ser desvinculado do nosso coração, não é para deixarmos que se enraíze no nosso interior.


Quando Eva cedeu à proposta de satanás, ela passou a ver as coisas e a agir segundo o sentimento que essa proposta lhe causou. “E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gênesis 3:6). Eva foi conduzida por um sentimento contrário à ordem que Deus havia dado, e isso é andar segundo a carne e não segundo o espírito. “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26:41). Eva não deixou de ser tida por culpada por ter se deixado enganar por um sentimento que ela achava ser bom.


Devemos tomar cuidado com os pensamentos contrários à santidade de Deus que venham a permear a nossa mente, pois se os agasalharmos em nossos corações eles se transformarão em desejos nos deixando à porta do pecado. Disse Deus a Caim: “...o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas sobre ele deves dominar.” (Gênesis 4:7)

Temos uma nova vida no espírito, já fomos abençoados com toda sorte de bênçãos, mas onde essas bênçãos residem? Nas regiões celestiais (Efésios 1:3). Então como podemos acessá-las? Andando no espírito, tendo as nossas atitudes de acordo com o padrão da Palavra, o que vai nos trazer paz e a certeza que estamos caminhando na direção certa.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Um dos aspectos para que não venhamos a andar verdadeiramente no espírito é o entendimento errôneo da ação do Espírito Santo em nossa vida. Tem-se valorizado muito o fazer e não o ser; não somos transformados pelo que fazemos, mas pelo que Deus já fez em nós. Há também uma falsa sensação de santidade por pertencer a uma determinada igreja e cumprir seus ritos; essa é uma das características da religiosidade em oposição ao verdadeiro Evangelho. O Evangelho é Deus vindo até nós graciosamente, religiosidade é o homem criando subterfúgios para chegar até Deus.


Muitos cristãos não têm disciplina espiritual, não estão investindo na intimidade com Deus e por isso não estão sendo transformado de glória em glória como que pelo espírito e o resultado é que estão sendo influenciados muito mais do que influenciando.

Faz-se necessário arrependimento dos maus caminhos e a volta ao primeiro amor (Apocalipse 2:5), pois fomos criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus, de antemão, preparou para que andássemos nelas (Efésios 2:10). É imprescindível saber em quem temos crido e que Ele é poderoso para nos guardar dos tropeços e nos apresentar puros e imaculados diante da sua face (Judas 1:24).

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